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Amargura

Pés descalços, em chãos lotados de espinhos, pedras pontiagudas e pétalas de rosas. Braços caídos ao lado do corpo, magro de fome. Garganta arranhada de tanta sede, de tanta seca, falta água, de tanto calor. Roupas esfarrapadas vestindo o que ainda resta de um farrapo humano. Cabelos embaraçados, piolhos. Rosto sujo de terra, pedaço de chão que ele sempre sonhou, mas que nunca teve; seu sonho: um pedacinho só para plantar milho e feijão, pra colher, vender e comer o que sobrar, pra não passar fome e não sofrer com a barriga roncando e ter de encarar os olhinhos dos filhos pequenos suplicando por um punhado de qualquer coisa.

Pobre homem. Anda horas por dia em busca de algo e volta sem nada, nada além dos pés esfolados e das canelas doloridas. No rosto o traço da derrota, mais uma vez e ele tentou, entretanto fracassou. Um dos filhos veio correndo quando ele chegou; de um salto pulou nos braços do pai, esse que o agarrou e sentiu os ossinhos das costelas do filho, magro de tanta fome.

Ele nada trouxe. Restava apenas cansaço e frustração. Botaria os filhos para dormir de barriga vazia. Ele ficaria sentado no banquinho improvisado com tijolos, olhando o céu carrancudo de estrelas e sonhando com um futuro melhor: sem fome, com roupas limpas, sem lágrimas de sofrimentos e com sorrisos nas caras dos filhos.

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Violação

– Eu te odeio! Eu te odeio. – Os gritos de Ana Clara eram carregados de dor. Uma angústia que ela nunca havia experimentado antes. Um sentimento ruim que corroía tudo por dentro igual ácido sulfúrico. Ana Clara estava trancada em seu quarto de criança, sentada no chão enquanto apertava contra o peito seu enorme cachorro de pelúcia; o brinquedo fora um presente do pai, e aquilo tinha sido a única boa lembrança que ela possuía dele antes de ele ter se transformado em um monstro, assustador e cruel.

Eram anos de desespero. De noites mal dormidas, de pesadelos constantes e de arrepios sem fim na espinha. Ana Clara estava cansada, debilitada física e mentalmente. Ela nunca se acostumou com o pai que a botava na cama, lhe cobria, dava um beijo de boa noite e antes de fechar a porta do quarto dizia baixinho:

– Papai já volta. – Como Ana Clara odiava ouvir aquilo. Por vezes ela pensou em se jogar pela janela, mas ela não queria sair como a derrotada da história. Suportaria tudo sozinha e nem ao menos a mãe ela contaria.

E quando o silêncio em casa fazia os passos do pai ela ouvia indo em direção ao seu quarto. E tudo começava com um beijo no pescoço, que coisa nojenta; com um carinho no seio, ela ficava apavorada, mas quando ele pedia para que ela abaixasse a calcinha, era aí que Ana Clara se contraia e tentava fugir, mas não tinha como; ela tinha somente quinze anos e não sabia se defender. Essas violações se repetiriam por meses. Todos os dias. Bastava à mãe pegar no sono para o pesadelo começar, e tudo sendo assistido pelo enorme cachorro de pelúcia de olhar triste e vazio.

Entretanto, Ana Clara poria um fim nisso. Uma noite antes de ir se deitar foi até a cozinha e sorrateiramente pegou e escondeu o abridor de vinhos do pai dentro da blusa que usava. Foi para o quarto e lá permaneceu. Quando escutou o barulho do clique da fechadura já sabia de quem se tratava. Com destreza escondeu o abridor embaixo no travesseiro.

– Oi? – Era seu pai. Quando a porta do quarto se fechou o coração de Ana Clara quase pulou do peito.

O desgraçado se aproximou lentamente, sentou a lado da filha e abraçou fortemente; por um momento ela pensou que se tratava de um gesto reconfortante, mas não era.

– Agora você vai tirar essa calcinha e ficar quieta. – Ordenou o pai enquanto tirava as calças.

Ana Clara obedeceu e se deitou ficando na posição preferida do pai. Ao sentir ser penetrada ela também o penetrou, mas no pescoço e por várias e várias vezes; foram seis golpes certeiros até ele não conseguir reagir mais e cair morto fora da cama.

– Eu te odeio! Eu te odeio. – Ana Clara gritava de desespero. O cachorro apertado contra o peito e uma sensação de alívio. O pesadelo tinha acabado.

Camila

O cabelo bem penteado, cortado bem curtinho, os olhos castanhos, tristes e vazios. Um quarto de criança, a cama da Barbie e as paredes pintadas de rosa, bem forte, de ofuscar a vista. Prateleiras espalhadas por todos os cantos, bonecas, ursinhos, infância, saudade.

Sentada diante da penteadeira ela se admira no espelho, mexe no cabelo curto, e o enrola como se tivesse longos fios e sonha acordada tentando imaginar tal coisa. Perfumes, cremes; uma pomada para ajeitar os cabelos, uma escova para penteá-los, uma presilha em formato de flor e uma flor já sem vida enfiada dentro de uma garrafa velha de refrigerante.

Na televisão tá passando desenho animado, mas ela pouco se importa. Pela janela, escondida detrás da cortina amarela ela olha a rua, ver crianças passeando de bicicleta, crianças correndo uma atrás das outras, ela vê felicidade, mas ela não sabe o que é ser feliz.

Ela quase não sai do quarto. Sai apenas para ir ao banheiro e para comer. Quando come faz sozinha, sem ninguém por perto, nem mesmo a mãe e o pai. Come numa tigela de plástico, de bordas gastas, de cor azul clara, de colher de bichinho em formato de leão. Apenas carne, nada mais, ela não gosta de arroz, sente pavor do feijão e odeia salada; não há cristo que a faça mudar de ideia. Às vezes tem purê de batatas no prato, purê com muito queijo, ela ama queijo!

É hora de tomar banho. Ela tem orgulho em dizer que se lava sozinha, que passa shampoo nos cabelos e não deixa espuma cair no olho. E quando vai dormir se agarra ao urso preferido, caolho, sem boca, sem graça, mas ela o ama.

Mais um dia surge. A mãe abre a porta do quarto e a chama:

– Vamos Camila! Hora de levantar e se arrumar para ir pra escola.

A menina levanta. As pernas bambas, os olhos lotados de sono. Café da manhã tomado, uniforme vestido, mochila da Barbie nas costas, sorriso tímido no rosto. Dentro do carro ela não fala, pela fresta do vidro só um pouquinho abaixado ela assiste os carros passarem, vê crianças com mochilas de rodinha andando nas calçadas acompanhadas pelos pais. Ao chegar à escola a mãe a ajuda com a mochila e a leva até a porta.

Professora na porta, de avental, cabelo preso e um enorme sorriso no rosto. Camila caminha, a cabeça baixa, o passo lento, parecendo não querer chegar. A menina passa direto, recusa o abraço de boas vindas da mestra e de carranca cruza os braços sobre o peito e some diante de tudo e todos.

Mãe preocupada. A professora a tranquiliza e diz que tudo está sobre controle. Camila ri, faz desenho, na verdade um monte de rabiscos que não dá para compreender, mas ela entende cada linha daquilo. Fim da aula. Camila espera a mãe na porta do colégio.

No carro ela sonha com dias melhores. Camila, quinze anos de idade, cabelos curtos, olhos grandes e vivazes. Camila é especial….FIM….

Respirador

Eu não consigo respirar, e muitos ao meu lado também não conseguem. Coração batendo fraquinho, um sopro de vida, um pouco de nada, somente esperança. Sinto pessoas passando por mim, sinto mãos me tocando, mas eu não consigo sentir nada, apenas um sentimento ruim. Silêncio, aflição. Lágrimas derramadas do lado de fora. Pessoas que desejam se abraçar, mas não podem. Pessoas que desejam sorrir de novo, mas estão impedidas de isso.

No relógio o tempo passa lentamente, mas o nosso tempo, o nosso tempo de vida está perto do fim. Dou meu último suspiro, o derradeiro de todos. Agora é a minha família que chora e também ora por mim.

Vejo mamãe inconsolável, de mãos espalmadas escondendo o rosto, e papai de barriga saliente e olhar sério tentando disfarçar a dor que ele sente agora. Coitados dos meus irmãos estão sem chão.

O mundo está sem rumo, eu sei. Não fui o primeiro e também não serei o último, infelizmente. No quarto ao lado eu ouço alguém tossir, é pouco, mas é uma possibilidade, pequena, de que alguém possa sair vivo de todo esse caos.

Luzes acesas. Gente rindo, festejando, enquanto mais uma família enlutada enterra seu ente querido. Como eu queria estar vivo para poder mostrar a essa gente o quão irresponsável eles são. Mas de que adianta tanto esforço se muitos não estão nem aí para nada, pois se se importassem com eles, se preocupariam com todos.

Daqui pra frente só poderei ver meus familiares daqui de cima e eles só me virão através de um retrato enfiado na carteira, ou em um porta retrato pendurado na parede da sala. As roupas vão continuar na gaveta, eu sei, mas a saudade vai doer pra sempre.

Medroso

Dias de medo, dias de frio. Dias em que sol até nasce, mas ele precisa de um empurrãozinho para sair. Teimoso. Fico dias a vagar por aí, divagando sobre a vida e inventando aventuras que nunca tive.

Sou medroso. Passo dias e noites trancado em casa assistindo televisão. Na tela heróis de capa e espada, montado em seus cavalos, e eu sentado no sofá fico a imaginar se fosse eu no lugar deles.

Louco é pouco, eu sei que não sou normal. Nas noites de lua cheia e céu estrelado eu saio a correr pelas ruas do meu bairro. Vou montado em minha bicicleta, com um lençol velho amarrado no pescoço e uma máscara de um carnaval lá longe. E grito a plenos pulmões palavras desconexas, divagações sem sentido.

Do lado de fora chove fraco. Tão fraquinho que mal dá para notar os pingos batendo nas telhas e escorrendo pelas paredes e deixando suas marcas.

E no ápice da loucura, onde o vento faz a curva e a gente não vê, o medo se aloja dentro de mim. Eu tento fugir às vezes, eu confesso, mas não adianta, ele sempre estará em minha companhia.

Por que tu me persegues e não deixa viver a minha vida? Por que tu me seguras e me impede de ser feliz? Trancado! É assim que eu vivo e ainda existo apenas para mim. Como é o mundo lá fora? Que gosto ele têm? É doce e salgado, é azedo e amargo e tem o cheiro agudo da tristeza ou do sabor adocicado da alegria.

Carta aberta a John Deacon

Meu caro amigo John. Desculpe-me trata-lo assim com tanta intimidade, sem ao menos conhecê-lo, mas saiba que eu sou seu fã e te admiro muito. As músicas que mais gosto de ouvir da minha banda favorita foi você quem escreveu, são tantas que eu nem vou citar aqui, pois, eu posso esquecer alguma e isso não é bom.

Vi uma foto sua no jornal e isso me entristeceu bastante. Vi você de olhar perdido, cigarro entre os lábios e a careca reluzente, nem parecia o John Deacon dos velhos tempos, sempre animado e com o sorriso largo na cara. Eu entendo você. Eu sei o quanto é complicado perder um amigo, e eu sei que o Freddie era seu melhor amigo, aquele que protegia e te incentivava sempre.

Entendo a sua decisão de se afastar do mundo da música e dos holofotes, da vida de rock star, mas sabe como é você faz muita falta.

Quem não se lembra dos integrantes do Queen vestidos de mulher em um vídeo clipe, a música foi escrita por você. A introdução de Under Pressure, simplesmente incrível, e a batida contagiante de Another one bites the dust, também de sua autoria.

Há meu caríssimo John. Como seria bom te ver ao lado do Brian e do Roger em um show, só um; mas como seu fã e admirador seu respeito a sua decisão de se afastar de tudo. Um abraço forte e muita saúde para o senhor meu eterno baixista…

Ressignificar

O tempo passa e a gente não vê. Os amores passam, nossos pais vão embora e só fica a saudade deles. Não falo mais com meus irmãos eles parecem distantes de mim. A solidão de uma casa vazia, dos porta-retratos espalhados pelo móvel da sala, dos quadrinhos pendurados nas paredes com retratos dos familiares. A poeira, as teias de aranha cobrindo tudo, a sujeira e a sugestão de dias melhores.

As ruas vazias, de calçadas estreitas, de crianças correndo descalças no asfalto ardente sem se importar com as marcas e as bolhas. Cadeiras balançando, cabelos brancos, agulhas caindo e os embaraços de linhas coloridas desembaraçadas deitadas nos colos, dormindo.

 Carrinhos e bonecas deixados de lado. Dedos velozes, olhos desatentos esquecendo o passado. Onde foram parar nossas crianças? Cadê nossos jovens tão vivos? Hoje estão mortos, jogados nas sarjetas, engolidos por copos sujos.

Vi meu futuro tenebroso em nuvens negras. Desisti de ver o sol nascer ao me deparar com aquilo que eu fui um dia. Uma criança assustada, com medo do futuro e com o passado grudado como lama na lente dos óculos. Inútil, medroso, imprestável. Foram palavras que eu ouvi e ainda ouço ecoar na minha mente. Às vezes eu me importo, mas eu sei que isso não tem nada de importante.

Um dia alguém me disse:

– Você chegou até aqui e ressignificou sua vida.

É isso que eu vou fazer…

Eu te amo Elisabete Aparecida!!!

Os óculos de lentes grossas, o cabelo todo preso, as bolsas penduradas nos ombros e a cara de brava chamaram-me atenção quando a vi pela primeira vez. Pensei. Melhor nem puxar conversa, essa daí não fala com ninguém, tem jeito de encrenqueira. Todos os dias eram assim até a gente começar a se aproximar, assim, sem mais nem menos. Mesmo assim eu tinha medo dela. Ela ainda usava os óculos de lentes grossas quando a gente saiu juntos pela primeira vez, foi pra um trabalho da faculdade; ela toda séria e eu fazendo piada com tudo, tentando arrancar pelo menos um sorriso, não lembro se consegui.

O tempo foi passando e as conversas foram evoluindo. Nos dias em que a vida queria acabar ela foi um dos ombros em que eu repousei minha cabeça tão confusa. Eu queria morrer, terminar com tudo, e ela foi das poucas pessoas que não deu só a mão, mas sim o coração e a alma por mim.

Na frente de um trem eu tentei me jogar, mas algo inexplicável aconteceu quando eu senti algo me segurando, às vezes eu acho que foi você junto das outras meninas. Por um tempo eu fui taxado de louco. Ninguém entendia o que eu estava passando, mas você chegava e conversava comigo e como eu me sentia confortável com isso, pois me trazia paz.

E foram vários encontros, vários cinemas e nossos jantares. Você dormindo nos filmes chatos e eu rindo de você, do seu jeito todo bravo, de cara amarrada. Em 2020 veio essa maldita pandemia, ficamos nove meses sem nos ver, apenas conversas pelo celular, mas a gente sabia que não era o suficiente, pois a gente precisava olhar no olho do outro.

E então nos encontramos, sua irmã junto. Mal nos acostumamos a ficar distantes e marcamos outra vez e depois outra. A gente precisava se encontrar antes do natal. Fomos ao nosso local preferido (pra mim é), almoçamos e conversamos bastante.

Mas foi na hora de ir embora, quando você me disse tantas palavras bonitas, só faltou me chamar de lindo. Aí eu tive uma certeza. Você é a pessoa mais importante na minha vida, à pessoa que me faz feliz, me entende e me escuta.

Muitos podem até dizer que não pode existir amor entre dois amigos, mas a gente sabe que se ama e já dissemos isso um para o outro por diversas vezes. E é por isso que eu repito mais uma vez: Eu te amo Elisabete Aparecida!!!

Renúncia

Ele não acreditou quando viu a mãe chegar, assim, tão de repente. Ela usava um vestido que cobriam os pés, sandálias de tiras largas na cor verde esmeralda; os cabelos estavam presos num rabo de cavalo e uma tiara completava tudo. Ele não deu importância para o rosto rechonchudo da mãe, mas com certeza ele mencionaria as covinhas e os arranhões que ele carregava na testa.

Por um par de segundos eles se estudaram. Ela caminhando com certa lentidão; ele sem camisa, de cabeça baixa, com os olhos fixados no chão. A casa imunda, a pia lotada. No quarto, a cama permanecia com os lençóis amarrotados, o travesseiro jogado no chão; junto com meias sujas e a roupa intima de uma mulher. A mãe não tinha duvidas, o filho mais novo tinha, sim, levado uma mulher para casa.

Olhou a casa de cabo a rabo. Passou os dedos pelos móveis e descobriu o estado deplorável que a residência estava. Ao abrir a geladeira quase caiu para trás; um azedume lhe invadiu as narinas e uma pontada de náusea lhe subiu repentinamente pela garganta. Aquilo fora a gota d’agua.

A geladeira estava lotada de alimentos embolorados. Uma alface apresentava cheiro ruim, carne estragada, além de sobras de sabe-se lá quando. A geladeira não tinha nada além de cerveja e algumas pequenas garrafas com água.

– Fez o que nessa casa, meu filho? – Perguntou a mãe.

– Aquilo que eu sempre faço, nada.

– Se ao menos trabalhasse. – Disse a mãe, cruzando os braços e fechando a cara numa fisionomia carrancuda.

– Não trabalho, pois não dou certo em lugar algum.

– Mas é claro. Olha essa casa, olha só você. Parece um doente.

– E a senhora parece uma louca. – Ele falou.

Então a mãe se enfureceu e acertou o filho na face. Deu para ver o rosto dele virando quando o bofetão atingiu-lhe em cheio, deixando as marcas dos dedos da mãe na cara.

– A senhora nunca me bateu… – Ele disse.

– Pra tudo tem sempre uma primeira vez.

O filho levantou a mão na tentativa de revidar a agressão, porém, desistiu sem maiores explicações.

– Eu deveria arrebentar a sua cara! – Ele gritou.

– Então vem, dá um soco na sua mãe, seu covarde!

Mas ele não deu, não teve coragem e provavelmente não teria caso tivesse uma nova oportunidade. Então correu para o quarto, bateu a porta com tudo e ali permaneceu por longos e intermináveis minutos; saiu com uma mochila enfiada nas costas, duas sacolas presa nos braços, a cara fechada, e os olhos injetados de cólera.

A mãe sentada sentiu o filho passar por detrás dela, mas nem pensou em se levantar. Não teve adeus, ela simplesmente não deu valor para aquilo. Mãe e filho nunca mais se viram. Ela não teve a decepção de saber que o filho fora assassinado com vários tiros em uma briga de bar em outra cidade. E ela morreria sozinha, dentro de casa, totalmente abandonada… FIM

O anjo suicida

Aqui do alto eu vejo uma moça, bonita, morena, de cabelos compridos até a cintura; magra muito magra e de olhar triste. O verde do teu olhar me desperta certa curiosidade. A linha do trem, o movimento tresloucado dos vagões indo e vindo e eu preciso decidir o destino dela. No ouvido um chamado: decida logo de uma vez. A moça sofre, eu também, pois odeio o que faço, entretanto, não tenho escolha é o destino.

As mãos suam e eu vejo a moça ajeitar os cabelos para o lado. Ela senta, cruza as pernas e espera. Plataforma lotada, trem parado, gente entrando e saindo. Aqui do alto eu observo homens se aproveitando da fragilidade alheia das meninas e vejo meninas, também desfrutando de suas meiguices, pura inocência.

O trem parte, gente espremida tentando sorrir pelo vidro. A moça agora de pernas descruzadas se levanta e anda lentamente pela plataforma, parece perdida. De um lado para o outro, os braços caídos ao lado do corpo magricelo, o brinco de argola balançando para lá e para cá, o sorriso se desmanchando na cara e uma lágrima escorrendo do rosto, solidão.

Pego a minha flecha e aponto. O trem se aproxima velocidade total. A moça olha para os lados e não enxerga ninguém ou pelo menos sua vista não permite, está tudo tão embaçado, sem nexo algum. O corpo cai, mas ela não é atingida. A dor na nuca é terrível, o joelho ralado e um pedaço da camiseta rasgada na altura do ombro.

Respiração ofegante. Gente a volta dela formando um circulo. Ela olha, ela chora. Um senhor vestido de terno e gravata e maleta preta se abaixa perto dela. Os curiosos se afastam. Tudo parece confuso. A moça aos poucos vai se levantando. Ela parece aliviada e eu também; ela vai ter uma segunda chance.

Na calmaria do paraíso ou na agonia do inferno tudo é tão igual. A mesma moça de ontem, sentada no banco de uma praça. Se no dia anterior ela estava cercada por um bando de abutres, dessa vez estava rodeada por lindas árvores. Um senhor carregando bastante idade e uma mochila de isopor transportando algodões-doces, a moça olha e sorri timidamente. Este senhor, encantado pelo belo e reluzente sorriso da moça lhe oferta um algodão cor-de-rosa, ela estica o braço e sorri agradecida.

– Você é muito bonita- Diz ele com sua voz fraca de idoso.

– Obrigada. – Ela diz tirando um pedaço do algodão e levando a boca.

A moça enfia a mão no bolso da calça a procura de uma moeda e nada encontra.

– Não se preocupe com isso, foi um presente. Vim andando e apesar da vista envelhecida eu pude perceber o quanto está triste. Dei o algodão pra te animar. Espero ter ajudado.

– Um pouco. Obrigada.

– Desculpe, mas seu braço está ralado? – Indaga o senhor. Ela olha de relance e fica calada por um tempo. O senhor retira a mochila de algodões das costas e senta ao lado dela. – Tudo bem, se não quiser falar não precisa.

– Eu tentei me jogar na frente de um trem. – A voz tremida, a boca tentando processar as palavras. O velho abraça a moça e ela se conforta dentro daquele abraço.

– Tudo bem. Eu sei muito bem como se sente. Quando eu era novo tentei fazer a mesma coisa, só que de um jeito diferente, mas isso não vem ao caso. – Ele concluiu.

Fiquei abismado com a atitude daquele senhor. Fui mexer nos meus arquivos e lembrei-me de quando eu o salvei. Ele era um rapaz de pouca idade, bonito, e bem sucedido financeiramente, mas pôs tudo a perder quando foi vítima de um golpe de um dos seus sócios. Ele não merecia morrer, assim como essa moça também não merecia, por isso o poupei desse grande calvário.

Ainda não decidi como será a vida dessa moça a partir de hoje. Estou pensando em fazer desse humilde vendedor de algodões-doces um mentor para ela.

Vi os dois caminharem pelo parque, ele carregando seus algodões e ela ao lado dele, de sorriso tímido e olhar distante.

– Minha família não gosta de mim. – Disse ela.

– Gostam sim, todos gostam. É que às vezes eles não sabem demonstrar.

– Não acredito nisso. Sempre fui mal tratada, inclusive pelo meu padrasto.

– Ele faz alguma coisa com você, ou fez?

– Me batia. Uma vez quase abusou de mim, mas minha mãe impediu. Daí ele… – A voz não queria sair. Ficou fraca, um sussurro apenas. – Ela a matou. – Conseguiu dizer.

O velho segurou com delicadeza não mão dela, não por causa da fraqueza de seus dedos, mas pelo momento.

– Eu tentei me enforcar. – Ele disse. – Não sei como não consegui, pois planejei tudo direitinho, sabe. Porém algo inexplicável aconteceu. Foi como se algo estivesse me segurando e me erguendo, impedindo que meu pescoço quebrasse.

Os olhos fixos da moça no velho enquanto ele fazia seu relato.

– Veja, tenho a marca até hoje. – Disse ele levantando a cabeça e mostrando no pescoço enrugado o desenho de uma corda. – Ficou essa marca aqui. – O velho colocou a mão no local.

– Minha nossa! Deve ter doído muito. – Falou a moça.

– Doeu, mas a dor maior não é física, mas sim na alma. Pessoas como a gente, desiludidas da vida, buscam no suicídio uma forma de sessar o sofrimento, mas o erro é pensar que dessa maneira todo esse sofrimento vai acabar, pelo contrário, ele só estará começando…

– A vida não tem mais sentido pra mim. – Falou a moça.

– Tem sim. Tudo na vida tem um sentido, um proposito. Não pense que foi fácil recomeçar. Fui aprendendo aos poucos como viver. A gente nasce de novo, sabe. E é segunda chance que deus dá para gente é para ser aproveitada da maneira correta.

Aqui do alto fiquei de olhar atento nos dois, sentados lado a lado. A moça sorria um sorriso grandioso e reluzente. O velho, agora de pé colocava sua mochila de algodões-doces nas costas curvas.

– Estamos a conversar há bastante tempo e eu nem sei o seu nome.

– É Sabrina. – Ela disse.

– O meu é Nestor. – Disse ele pegando levemente na mão de Sabrina e a beijando suavemente. – Me promete uma coisa. Se passar pelo parque me procure. É sempre bom conversar, e outra coisa. Gostei muito de você.

– Eu também gostei do senhor. Obrigado por tudo o que disse.

Sabrina levantou-se e foi embora, depois daquele dia os dois não mais se veriam.

2

Nosso Senhor está irritado hoje. Acordou distribuindo raios e trovões por aí, além de chuva, muita chuva. O mundo tem sido uma constante bagunça. Dessa forma, com enchentes, terremotos, é que ele tenta mostrar ao planeta o quanto os seres humanos estão errados, mas infelizmente tem sido em vão.

Ouvi dizer que um asteroide pode ser enviado para consertar tudo, mas dar um fim a algo que deu tanto trabalho para ser construído é valido? Não sei. Há poucos meses ele enviou um vírus pra terra, muita gente tem morrido e muitos ainda irão morrer, mas lamentavelmente nada de melhor ocorreu com o pensamento das pessoas.

Diariamente eu fico a observar daqui de cima o comportamento de todos vocês. Consigo visualizar tudo de bom e de ruim feito na Terra; e o que eu tenho visto não tem sido nada animador, preocupante até.

Hoje eu tenho mais uma tarefa. Ficar de olho em um jovem. O nome dele é Caio. Esse rapaz de vinte e um anos de idade, é de uma família bem estruturada, tem irmãos, mas está desiludido da vida; tudo isso depois de terminar um relacionamento de há muito tempo. Entretanto a moça que ele tanto cultua não é de fato o amor da vida dele. Caso ele mereça ser salvo, a moça irá aparecer assim, sem maiores explicações na vida dele.

Caio está trancado em seu quarto, sentado na beirada da cama ainda desarrumada, assim como está bagunçada a sua vida. Ele se levanta, caminha pelo quarto e abre a gaveta do guarda-roupa e de lá tira um revolver. Apreensão. Na casa um grande silêncio, todos estão dormindo. Revolver na cabeça, mãos desordenadas, o gatilho puxado, o barulho do tiro, seco, triste e sem graça.

A mãe levanta com o barulho, o pai de cuecas sai tropeçando pela casa. Irmãos surgem. Quando a porta do quarto é aberta eles encontram Caio de bruços no chão, a camiseta manchada de sangue, o olho virado, sem vida.

Não venham me perguntar por que eu decidi pelo fim desse jovem, na verdade não sou eu quem decide, é ele, o Nosso Senhor. Caio era um rapaz de vida agitada. Vivia num relacionamento de idas e vindas, de idas e voltas com uma moça. Mulher essa de vida complicada, com pais viciados e irmãos no mundo do crime. Ela também cometia os seus; pequenos roubos, claro.

Caio a conheceu em uma festa no meio de uma rua. Ela de um lado da via e ele do lado oposto, olhares cruzados, sorrisos trocados, e um beijo fez o coração de o jovem despertar para um mundo nada bom.

Drogas pesadas, pequenos roubos e até atirar em outra pessoa ele fez, não matou, mas a imagem da bala atingindo a perna da pessoa morou nos pensamentos dele por um bom tempo. Vida filha da puta, amor bandido. Caio namorou por um par de anos, mas se viu sem saída quando a amada trocou o amor sincero dele pelo amor de outra pessoa. Caio se desenganou. Existir para ele não tinha mais significado, então para que permanecer vivo?

Comprou a arma, de numeração raspada, com um sujeito na rua; pagou em dinheiro, enfiou o revólver dentro da calça e voltou para casa. Escondeu em uma gaveta dentro do guarda-roupa. Ela permaneceu escondida por alguns meses, sem que ninguém da casa pudesse suspeitar, Caio não gostava que mexessem nas coisas dele. No dia do acontecimento, Caio levantou bem cedo e saiu de casa. O irmão mais novo o viu pela janela fechando o portão; Caio vestia calça comprida e blusa, apesar de não estar frio naquele dia. Voltaria mais tarde, quase à noite, sem responder os questionamentos do pai e respondendo grosseiramente à mãe.

Trancou-se no quarto. Apagou a luz, ligou o som no volume máximo e ali ficou por um bom tempo. Percebendo o silêncio da casa desligou o som, levantou-se, e lentamente foi até o guarda-roupa. Gaveta aberta. A arma embrulhada em uma camiseta de cor preta. As mãos não tremiam quando segurou na arma, mas elas tremeriam no momento do tiro certeiro.

Desolação. Mãe e pai de joelhos ao lado do corpo. A mãe segurando a cabeça ensanguentada do filho; o pai sem saber o que fazer. O irmão mais novo, com lágrimas nos olhos, digitava no telefone os três números da polícia. A viatura chegaria. Nada mais poderia ser feito, a desgraça estava presente naquela família.

Aqui do alto eu vejo uma jovem, não sei, mas acho que também irei salvar ela.

<p class="has-drop-cap" value="<amp-fit-text layout="fixed-height" min-font-size="6" max-font-size="72" height="80">FIM….FIM….

Segundo Ato

No escuro da noite, na penumbra do quarto, enfiado debaixo dos cobertores ele se esconde. Medroso, inútil, um sopro de vida, um resto de nada. Na rua apenas o som das vozes distantes, dos jovens, e a respiração dos velhos dormindo em suas casas, de janelas abertas, esperando nosso senhor virem busca-los para uma eternidade tão sonhada.

Coração acelerado, respiração agitada. No calor intenso debaixo dos cobertores ele sua, gotas rolam pelo rosto e molham o travesseiro velho, sujo e já sem espuma. Forrando o colchão um lençol amarelo, não pela cor natural, mas devido à falta de lavagem, ao desleixo a imundície.

Seu corpo é sujo, sua alma também. Seus dentes, os poucos que ainda sobram na boca são pretos e com pedaços de restos de comida. Os cabelos não conhecem mais tesouras, a barba, suja e esbranquiçada cobre o que ainda resta de seu rosto imundo. Suas roupas estão encardidas. A camisa de cores listradas, de vermelho e branco, de azul e cinza é ainda o que sobrara de um presente dado pela família, o último; de um natal longínquo e feliz.

Um rato passa por sobre ele, ele não está nem aí. Sente o cheiro de podre do animal e isso não lhe causa repulsa, talvez um pouco de ânsia, mas isso passa rápido. O ruído do bicho lhe causa arrepios na espinha. Ele se levanta, joga os cobertores no chão e com passos trôpegos caminha em direção ao nada. A janela batendo com o vento, o som do silêncio, a luz de um puteiro piscando freneticamente enquanto seu coração pula descompassado, sem compromisso.

Dia seguinte segundo ato. A porta aberta, o pão empedrado em cima da mesa, uma ponta de faca com as sobras de uma manteiga embolorada. Mordida azeda, gosto de coisa estragada na boca. Ele cospe o que acabara de mastigar enquanto a barriga ronca de três dias sem nada.

Nas ruas o abandono. Gente jogada pelos cantos, enroladas em cobertores cinzentos. Fogueiras acesas a luz do dia, bem perto do sol escaldante. No vai e vem frenético da cidade ele se esconde ou tenta. Na fila da marmita do governo ele se anima, vai poder finalmente matar aquilo que lhe mata dia após dia, a fome.

Num pedaço de isopor, arroz, uma carne de aspecto estranho, e uma coisa branca e amarela, parecendo um purê de batatas. Foda-se, é comida. Faminto ele come feito um animal, lambendo ferozmente o fundo daquilo, passando os dedos engordurados e os chupando loucamente.

A barba suja de molho, a barriga satisfeita, o coração feliz. Fabrício, de 25 anos. Na rua desde os 16, gay. Expulso de casa pelos pais. Humilhado pela sociedade. Por pouco não desistiu da vida, mas ainda bem que a vida, tão preciosa não desistiu dele. Ele sabe que vai sofrer e muito, mas não se importa. Na casa abandonada que virou a moradia ele entra. O lençol carcomido é jogado fora, ele ganhou outro de uma desconhecida na rua, tem também um travesseiro novinho, cheiroso; um banho até que cairia bem, Fabrício sairia pela vizinhança em busca de água.

Um abandono só

Manhã de dezembro, chuva batendo na janela, vento agitando as árvores, solidão. No escuro do meu quarto eu sinto o sol ainda vergonhoso adentrar mansamente pelas frestas da velha janela. Aqui dentro a pintura descascada das paredes e o cheiro ruim de mofo. Tudo está caindo aos pedaços. Levanto de vez e quase caio, a culpa são das coisas espalhadas pelo chão: restos de roupas, pares de sapatos e pedaços de um tempo que infelizmente não voltarão jamais. Retratos, cartas de amores antigos, das saudades dos amigos que foram um dia, mas que hoje não passam de uma vaga e perniciosa lembrança.

No banheiro aquele espelho quebrado. Resultado de uma noite de bebidas e de um acesso de fúria. Descontei no meu reflexo toda a minha raiva por não ter podido fazer algo melhor sobre eu mesmo. Idiotice. Cabelos penteados para trás, um pouco de gel para dar aparência de limpo e borrifos de perfume debaixo dos braços; cheiro insuportável.

Na mesa da cozinha o que restará do jantar de ontem, na geladeira algumas latas de cerveja, uma delas aberta, com o liquido ainda lá dentro me chamando, implorando pelo último gole; um desatino.

Desvio o rosto, respiro fundo e com toda a pressa do mundo eu saio dá li. A porta fechada atrás de mim, a chave girada duas vezes, enfiada no bolso direito da calça e mascará de um personagem infantil enfiada na cara, desilusão. Dentro do ônibus ninguém se percebe. São vários olhos vigiando e sendo vigiados. São fofocas sobre a vida da vizinha; reclamação do salário ruim pago pelo patrão e preocupações e preparativos para as festas de final de ano; ninguém está aí para nada.

Eu não me importo mais com a vida, estou em estado total de abandono; seja o que deus quiser. Mas ele não tem que querer; quem tem que querer sou eu. Que acordo todos os dias desanimado, reclamando da vida e achando que até as coisas certas estão errada; divagação.

Tarde da noite. Em pé, da janela do meu quarto, eu observo o movimento frenético das ruas; barulho de buzina, gente chamando por nomes que eu não compreendia. Fecho as janelas e puxo as cortinas e depois as cobertas. Está frio, lá fora e aqui dentro. A culpa lá fora é da falta de calor humano e de cobertores quentinhos; aqui dentro a culpa é do mofo e da minha falta de vontade; um abandono só….

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